ARTIGO: COMPREENDENDO O TRANSTORNO OBSESSIVO COMPULSIVO -
TOC
Embora existam descrições deste transtorno desde o século dezoito
ele ficou abandonado pelos profissionais de saúde mental e meios de comunicação
até recentemente, quando foram retomados estudos e sua divulgação.
O TOC
continua sendo um enigma para os estudiosos quanto a suas causas, curso clínico
e tratamento mas progressos enormes já foram realizados.
Ocupa o quarto
lugar entre os transtornos psiquiátricos mais comuns e é colocado pela
Organização Mundial da Saúde entre as dez condições médicas ( de todas as
especialidades ) mais incapacitantes para o indivíduo atingido.
A alta
incidência e o enorme sofrimento dos portadores do TOC justificam o enorme
esforço de pesquisa envolvendo este tema.
Como podemos caracterizar o
transtorno obsessivo - compulsivo - TOC ?
A caracterização do
transtorno está baseada na ocorrência primária de obsessões e compulsões, com
uma diversidade muito grande, o que torna a sua caracterização e diagnóstico
difíceis para os especialistas.
O que são as obsessões e as compulsões
que caracterizam o TOC ?
Obsessões são pensamentos, idéias, impulsos
e imagens mentais recorrentes, intrusivos e vivenciados como desagradáveis e
como próprios do indivíduo, ocasionando ansiedade ou mal-estar, que consomem
muito tempo e interferem negativamente nos relacionamentos e atividades do
portador.
Compulsões são comportamentos ou atos mentais repetitivos,
realizados para diminuir o mal-estar e ansiedade causados pelas obsessões,
obedecendo a regras rígidas e que podem ter também a finalidade de tentar evitar
uma situação temida.
Qual é a temática mais comum das
obsessões?
Em geral é referente a acidentes, perda de pessoas
queridas e contaminação.
São muito conhecidas as obsessões que envolvem
deformidades físicas, doenças e contaminação por germes variados, AIDS,
radioatividade e outros agentes.
Outra temática comum é relacionada com a
agressividade: medo de ferir ou matar alguém, de se matar de prejudicar alguém
sem querer, de fazer algo proibido ou embaraçoso, como furtar alguma coisa,
assediar alguém, xingar ou falar palavrões em uma festa ou em um culto
religioso.
E as compulsões mais comuns?
Praticamente
qualquer comportamento pode se tornar uma compulsão mas os rituais de lavagem (
de objetos, de mãos e banhos ) são muito frequentes.
As compulsões de
verificação estão relacionados ao medo de ocasionar danos por imprudência (
verificações repetitivas se as portas estão fechadas, o fogo desligado no fogão,
se os freios do carro funcionam ).
Ocorrem também as compulsões de
contagem ( repetir mentalmente somas e divisões ) e busca de simetria nos
objetos, nos toques e no caminhar.
Só os portadores do TOC apresentam
obsessões e compulsões?
Não. Qualquer pessoa pode manifestar
obsessões e compulsões. O que as tornam características do TOC é a elevada
ocorrência, consumindo muito tempo do indivíduo e prejudicando seriamente o seu
funcionamento social, profissional e de vida familiar. Alguns portadores chegam
a ficar a maior parte do dia ocupados com as obsessões e os rituais compulsivos.
Há casos em que o portador do TOC destroi a pele da mão de tanto
lavá-la.
Se o TOC causa tanto sofrimento o portador procura logo ajuda
médica?
Não. Alguns estudos mostram que, em média, há um intervalo de
7 anos desde o início do sintomatologia ( adolescência, início da vida adulta e
mais raramente na infância, mais cedo para os homens que para as mulheres ) e a
procura de ajuda, frequentemente determinada por familiares e amigos que já não
suportam o que esta acontecendo com o portador.
Por que é necessário a
intervenção de amigos e familiares?
O portador do TOC tenta manter em
segredo o seu transtorno e tem consciência da falta de sentido de suas obsessões
e compulsões e tenta escondê-las ao máximo, mesmo de pessoas com que convivem
intimamente.
Só procuram ajuda quando estão muito deprimidos ou com medo
de fazer mal a alguém de uma forma demasiado intensa.
É grande o
número de portadores de TOC na comunidade?
Os estudos mostram uma
incidência de 2% na população, o que coloca o TOC na 4º lugar entre os
transtornos psiquiátricos mais frequentes. Esta ocorrência é praticamente a
mesma em todos os países que desenvolverem estudos sobre o TOC, o que aliado a
uma igualdade dos casos clínicos (mostrando pouca influência dos fatores
culturais) faz pensar numa base biológica para o transtorno.
Qual é a
causa do TOC?
Não existe uma causa única específica para o TOC. Ainda
falta muito para atingirmos um melhor entendimento das origens do TOC.
Há
estudos que mostram a importância dos fatores genéticos ( elevada incidência em
parentes próximos ), de fatores cerebrais ( alterações específicas em
determinados circuitos cerebrais ) e estudos sobre componentes psicológicos
específicos dos portadores do TOC.
A possível causa do TOC deve resultar
da interação de fatores genéticos, ambientais e bases neurobiológicas (
alterações em circuitos cerebrais e seus neuro-transmissores ) com fatores
próprios do funcionamento psicológico do indivíduo ( tendência ao pensamento
mágico, perda da delimitação entre o que é pensamento e o que é
realidade).
Uma vez instalado, qual é o curso clínico do
TOC?
Podemos afirmar, de uma forma geral, que os sintomas obsessivos
apresentam flutuações , períodos de melhora e piora sem que ocorra uma melhora
total na maioria dos casos, o que leva a uma cronificação do
transtorno.
O curso clínico é muito variável de portador a portador e
talvez estas diferenças possam vir a ser importantes para uma melhor compreensão
e tratamento do TOC.
Há fatores desencadeantes do
TOC?
Estima-se que em até 70% dos casos houve um fator precipitante (
eventos de vida estressantes em momentos de vulnerabilidade )
identificável.
Em muitos casos o quadro surge sem que se possa
identificar algum desencadeante.
Quais são as complicações mais comuns
do TOC?A depressão ( muitas vezes impossível de se distinguir
sintomaticamente da depressão maior ) é provavelmente a complicação mais comum
do TOC.
A falha em se casar também é um a complicação do TOC, o que
reflete um grande número de celibatários entre os portadores.
Apesar do
tema de suicídio ser muito frequente nas obsessões o risco de suicídio é baixo
nos portadores do TOC ( menos de 1% ).
Há poucas evidências que o TOC
predisponha ao homicídio, comportamento criminoso e uso de drogas e
álcool.
Os portadores do TOC raramente ficam totalmente incapacitados,
necessitando internações de longo prazo.
Quais os critérios que os
especialistas usam para estabelecer o diagnóstico do TOC ?
A
classificação das doenças da Organização Mundial da Saúde OMS coloca o TOC junto
aos ´´ transtornos neuróticos, relacionados ao estresse e somatoformes `` e
recomenda para seu diagnóstico:
. Os sintomas obsessivos, atos
compulsivos ou ambos devem estar presentes na maioria dos dias por pelo menos
duas semanas consecutivas e ser fonte de ansiedade ou de interferência com as
atividades.
• O sintomas devem ser reconhecidos como pensamentos ou
impulsos ao próprio indivíduo.
• Deve haver pelo menos um pensamento ou
ato que ainda é resistido, sem sucesso, ainda que possam estar presentes outros
aos quais o paciente não resiste mais.
• O pensamento de execução do ato
não deve ser em si mesmo prazeroso.
• Os pensamentos, imagens ou impulsos
devem ser desagradavelmente
repetidos.
Há outros critérios além
dos estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde?
Sim. O Manual
Estatístico e Diagnóstico da Associação Psiquiátrica Americana considera o TOC
no grupo dos transtornos de ansiedade e estabelece que o diagnóstico deve ser
feito com os seguintes critérios:A - Presença de obsessões ou compulsões -
obsessões definidas como (1), (2), (3) e (4)
1 - pensamentos recorrentes
e e persistentes, impulsos, ou imagens que são vivenciadas, em algum tempo
durante a perturbação, como intrusivos e inapropriados e que podem causar
acentuada ansiedade ou mal-estar.
2 - os pensamentos, impulsos ou imagens
não são simplesmente preocupação excessivas sobre um problema da vida
real.
3 - a pessoa tenta ignorar ou suprimir tais pensamentos, impulsos
ou imagens ou neutralizá-los com outros pensamentos ou ações.
4 - a
pessoa reconhece que os pensamentos obsessivos, impulsos ou imagens são um
produto de sua própria mente ( não impostos de fora como na inserção de
pensamento ).
Compulsões definidas como (1) e (2)
1-
comportamentos repetitivos ( por exemplo lavar as mãos, colocar coisas em ordem
averiguar ) ou atos mentais ( por exemplo rezar, cantar, repetir palavras
silenciosamente) que a pessoa sente-se impulsionada a realizar em resposta a uma
obsessão ou de acordo com regras que deve aplicar
rigidamente.
2-
os comportamentos ou atos mentais visam a prevenção ou redução do mal-estar ou
prevenção de alguma situação ou acontecimento temido; contudo, estes
comportamentos ou atos mentais ou não estão conectados de uma maneira realística
com o que eles estão tentando neutralizar ou prevenir ou são claramente
excessivos.
B - Em algum ponto do curso do transtorno a pessoa reconheceu
que as compulsões são excessivas ou irrazoáveis.
Nota: Isto não se aplica
a crianças.
C - As obsessões ou compulsões causam acentuado mal-estar,
consomem tempo ( mais que 1 hora ao dia ) ou interferem significativamente com a
rotina normal da pessoa, com o funcionamento ocupacional ( ou de estudos ) com
as atividades sociais e relacionamentos.
D - A perturbação não é devida a
efeitos fisiológicos diretos de uma substância ( por exemplo, uma droga de abuso
ou medicamentos ) ou a uma condição médica geral.
Como é o tratamento
do TOC?
Os antidepressivos em doses elevados têm lugar assegurado no
tratamento do TOC, principalmente os que agem predominantemente na serotonina
(sertralina, fluoxetina, clomipramina, paroxetina, etc. )
Os pacientes
raramente ficam assintomáticos mas a maioria obtém um alívio significativo dos
sintomas.
Os pacientes que não apresentam resposta aos antidepressivos
que agem na serotonina podem fazer uma tentativa com medicamentos que atuam em
outros neurotransmissores. Como o TOC tem um curso geralmente flutuante, com
períodos de piora e de melhora o tratamento de manutenção é uma indicação para a
maioria dos casos.
A adição da psicoterapia ao tratamento medicamentoso
tem se mostrado um recurso eficaz.
É indicado também para o portador de
TOC atividade física regular, alimentação saudável e hábitos de vida que
contribuem para uma estabilidade mental.
Qual é o prognóstico dos
portadores do TOC?
É um fato reconhecido em psiquiatria que o TOC tem
um prognóstico ruim, as melhoras são parciais e não existe uma cura para o
transtorno.
O seguintes fatores podem ser considerados de bom
prognóstico:
• idade de início mais tardia
• menor gravidade dos
sintomas obsessivos
• ausência de transtornos de personalidade
•
boa resposta inicial à intervenção terapêutica
• ausência de transtornos
psiquiátricos nos pais
• bom ajustamento social
Há alguma ajuda
além dos tratamentos medicos?
Sim. Os pacientes podem se beneficiar
de associações de familiares e portadores do transtorno obtendo mais informações
e suporte emocional para conviver com um transtorno que irá acompanhá-los
durante toda a sua vida.
Como procurar ajuda para alguém que apresenta
os sintomas do TOC e quer fazer um tratamento?
É importante iniciar a
procura pelos recursos mais próximos ao paciente como o médico da família, o
centro de saúde do bairro, ambulatório médico do trabalho, da escola etc. Caso o
médico que faz o primeiro atendimento não tenha experiência no tratamento do TOC
ele saberá indicar um especialista.
São Paulo, 17 de janeiro de
2013.
professor nelson santos
www.reabilitacaodesaude.blogspot.com
email : nelson_enfermagem@hotmail.com
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